Apesar das perspectivas ainda otimistas para a indústria automobilística e da previsão de crescimento no faturamento do setor de autopeças, o clima anda tenso entre montadoras e fabricantes de componentes, o que pode atrapalhar o bom desempenho dos negócios neste ano. De um lado, ameaças de maior importação de aço e substituição de componentes nacionais por estrangeiros, sob alegação de falta de qualidade. De outro, fôlego reduzido para investir, concorrência com importados acirrada pelo câmbio e críticas ao comportamento das fabricantes de automóveis.

A venda interna de veículos registrou ontem o melhor primeiro semestre da história da indústria automobilística no Brasil. Nos primeiros seis meses de mercado sem o incentivo de IPI reduzido por todo o período, 1,579 milhão de veículos foram licenciados. O volume vendido no país em seis meses representa três vezes o mercado da Argentina em 2009. Na comparação com o ano passado, o mercado brasileiro ficou quase 9% maior no semestre.

A sucessão de recordes no setor automotivo, em grande parte resultado da facilidade no crédito no mercado doméstico, terá, daqui para a frente, de conviver com um clima mais tenso nas relações entre montadoras e fornecedores. As negociações começaram a mudar de tom quando a direção da Volkswagen anunciou estar disposta a apoiar a vinda de empresas europeias interessadas em erguer fábricas no Brasil, sob o argumento de que um terço das fabricantes de componentes do país pressiona por reajustes, mesmo sem cumprir prazos de entrega e fornecer itens de qualidade questionável.

Em comunicado, o Sindipeças rebateu duramente as críticas e disse que tais ameaças são “destrutivas”. Na avaliação do economista Alexandre Andrade, da Tendências Consultoria, buscar a conciliação com montadoras, e com apoio do governo, é o principal desafio da indústria de autopeças. “O setor deixou de investir nos últimos quatro anos e não conseguiu acompanhar o crescimento da indústria automotiva. Agora, é preciso criar condições para que o setor volte a investir efetivamente”, diz.

Segundo o Sindipeças, os aportes previstos para este ano deverão superar os US$ 900 milhões aplicados em 2009 e somar US$ 1,33 bilhão. Em ritmo ainda maior devem crescer as importações. Pelos cálculos da entidade, o déficit das autopeças deve chegar ao recorde de US$ 3,923 bilhões, com embarques de US$ 9,601 bilhões e importações de US$ 13,524 bilhões.

“Mesmo com a eliminação gradual do redutor (de 40% sobre o Imposto de Importação), as importações não devem recuar de forma significativa, porque há muitos itens que não são produzidos no país”, aponta Andrade.

Uma fonte da indústria considera que a direção da Volkswagen “foi infeliz na colocação”. Afinal, toda a indústria se prepara para o melhor ano da sua história. Segundo representantes das autopeças, os pedidos continuam firmes, com previsões de volumes de produção altos para os próximos meses.

O resultado de licenciamento em junho – 262,7 mil unidades – surpreendeu os executivos do setor, que esperavam algo entre 250 mil e 260 mil. O estoque subiu, segundo informações de uma fonte da indústria, para 324 mil unidades na virada do mês. O volume é maior do que os 289 mil de maio. Isso ajuda o consumidor a barganhar reduções de preços nas concessionárias, que também registram um bom movimento no mercado de carros usados.

Por outro lado, o primeiro semestre de 2010 mostrou um mercado maior do que a primeira metade de 2009, mesmo com o IPI reduzido ao longo de todo o ano passado, porque nos primeiros três meses do ano passado as vendas estavam ainda fracas, refletindo a crise de crédito do fim de 2008. Basta comparar os dois primeiros trimestres: foram 664 mil veículos vendidos de janeiro a março de 2009 e 834 mil, no mesmo período deste ano, resultando em um acréscimo de mais de 25%.

Mas, como tradicionalmente a segunda metade do ano é melhor do que a primeira no mercado de automóveis, as projeções indicam novos recordes. A maior parte das equipes de estatística do setor calcula que o Brasil produzirá este ano 3,5 milhões de veículos, o que representa um crescimento de 10% na comparação com 2009.

O mercado mostra que não precisou do IPI reduzido para se manter aquecido. Mesmo assim, as montadoras devem, ainda, buscar mais incentivos sob o pretexto de que a crise mundial e a valorização do real têm estimulado as importações de carros. A participação de modelos importados no mercado passou de 13,5% há um ano, para 18%.

O ritmo das exportações também tem melhorado, levando em conta, porém, a brusca queda no ano passado. Mas não é com as vendas externas que a indústria conta. A força continua vindo do mercado doméstico, que registrou em junho a média de 13 mil veículos licenciados por dia. O ritmo só diminuiu nos dias de jogo do Brasil na Copa do Mundo: foram 6 mil unidades no dia da partida contra Portugal e 9 mil no dia em que a seleção brasileira enfrentou o Chile.

Fuente: Valor Econômico (02/07/2010).