O nível de utilização de capacidade utilizada (Nuci) da indústria de transformação caiu de 85,1% em abril para 84,9% em maio, na primeira queda desde janeiro de 2009, na série com ajuste sazonal. O movimento é um sinal da desaceleração da atividade no segundo trimestre, mas mostra acomodação num patamar elevado. O recuo foi puxado pelos setores de bens de consumo e bens de capital. O aumento da utilização de capacidade, porém, foi forte nos segmentos de bens intermediários (insumos como aço, produtos químicos e celulose) e principalmente de material de construção. Os resultados são da Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que revelaram também um aumento do apetite das empresas por contratações.

Para o coordenador técnico da sondagem, Jorge Braga, o desempenho de maio indica que a situação na indústria segue aquecida, especialmente por causa do mercado interno. “O Nuci teve uma pequena queda, mas continua num nível elevado.” Embora esteja abaixo do recorde de 86,7% atingido em junho de 2008, está acima da média do período de 2004 a 2008, quando a economia cresceu a um ritmo forte.

Segundo ele, o fim das desonerações tributárias promovidas pelo governo para veículos e eletrodomésticos de linha branca ajudam a explicar a redução do Nuci. Depois das fortes vendas no primeiro trimestre, houve retração em abril e maio, o que levou a um encolhimento da produção. A utilização de capacidade na linha branca, no qual algumas empresas chegaram a dar férias coletivas para seus trabalhadores, caiu de 92,3% em abril para 76% em maio. No setor de material de transporte, que inclui os veículos, o Nuci recuou de 89,7% para 89,4%.

A queda da utilização de capacidade da indústria também se deveu ao recuo no setor de bens de capital, de 83,4% para 82,8%. Segundo Braga, pesaram aí as férias coletivas concedidas por uma grande empresa que produz equipamentos para a agricultura.

O recuo, porém, não foi generalizado, como indica o resultado de bens intermediários e especialmente de material de construção. Nesse setor, o Nuci subiu de 89,4% para 91,6%, o nível mais alto da série iniciada em 1993. A atividade na construção está muito aquecida, como comprovam também a forte criação de empregos e os elevados aumentos de salários. Para o analista-sênior do BNP Paribas, Diego Donadio, o Nuci de maio mostrou estabilização num patamar elevado da ocupação de recursos na indústria. A maturação recente de investimentos também pode ter levado à leve redução da utilização de capacidade em maio.

Braga também chama a atenção para o aumento do número de empresas dispostas a contratar funcionários: em maio, 34,5% das 1.199 companhias consultadas informaram que pretendem aumentar o número de funcionários nos próximos três meses. É o maior percentual desde os 34,9% de junho de 2008. É um indicador bastante positivo, por indicar a aposta das empresas na continuidade do crescimento robusto nos próximos meses.

O índice de confiança da indústria, por sua vez subiu 0,7% em maio, para 116,1 pontos, o terceiro maior nível da história. Houve uma pequena piora na percepção da situação atual, mas uma melhora das expectativas quanto ao futuro. (Com Folhapress, de São Paulo)