As dúvidas de Lula sobre incentivar o carro elétrico no Brasil são as dúvidas do padroeiro do etanol. Nos últimos anos, o presidente correu o mundo com a bandeira do etanol. Brigou por ela. Garantiu que as plantações de cana não avançariam sobre a floresta amazônica nem sobre áreas de cultivo de alimentos.

Agora, teme dar um tiro no pé da tecnologia made in Brazil e no destino dos carros “flex”, que já superam 30% da frota de veículos do País.

Nas dúvidas sobre a adesão à nova tecnologia, Lula tem o apoio do ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento), responsável pelo cancelamento do anúncio dos incentivos ao carro elétrico na semana passada. E, sobretudo, da indústria automobilística instalada no País. Durante o governo de Lula, foram comercializados no Brasil quase 10 milhões de carros flex.

Se o presidente tem dúvidas, não há dúvidas no cenário traçado pelo BNDES e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. O principal provedor de crédito no País está engajado no programa do carro elétrico. Os fundos de pesquisa, idem. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, escreveu recentemente que os carros elétricos são uma “tendência inexorável”, apesar do custo alto e dos desafios tecnológicos, como o desenvolvimento de bateria com mais autonomia.

Os carros elétricos híbridos representam menos de 2% das vendas totais e quase insignificante 0,3% da frota mundial neste ano. Mas a participação crescerá para cerca de 66% das vendas mundiais e quase 36% da frota global daqui a 20 anos, segundo estimativas usadas pelo BNDES. O banco fala até num híbrido que use etanol e energia elétrica.

O Brasil tem o quinto maior mercado consumidor de automóveis. E está entre os maiores produtores mundiais. Na dúvida do presidente, está em jogo o futuro desse mercado.

Fuente: O Estado de S. Paulo (01/06/2010).

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