BRASÍLIA – Fixar um prazo para que as montadoras sejam obrigadas a adotar selos que mostrem a eficiência dos motores e seu nível de emissão de poluentes é uma das propostas que o governo deve apresentar após a conclusão dos trabalhos do grupo formado pelos ministérios da Fazenda, Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente em parceria com o setor automotivo. O grupo foi criado no ano passado para discutir uma política de inovação tecnológica para esse segmento – que foi o maior beneficiado pelos incentivos fiscais durante a crise econômica mundial – e deve divulgar um primeiro relatório nas próximas semanas.

Segundo técnicos da área econômica, o selo – semelhante ao que já é utilizado hoje pelos fabricantes de geladeiras – é uma forma de garantir que o setor invista em tecnologias mais modernas e menos poluentes. Além disso, ele pode futuramente ser um balisador de incentivos fiscais que o governo concede às montadoras. Hoje, diferentes órgãos do governo trabalham em selos para medir a eficiência dos carros. O Inmetro, em parceria com a Petrobras, já criou o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBE Veicular).

Essa etiqueta é graduada de A a E e varia de acordo com o desempenho do carro em relação ao consumo de combustível. Já o Ministério do Meio Ambiente e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), em parceria com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), começaram a desenvolver um selo para medir as emissões dos veículos. No futuro, esses dois selos sejam unificados para classificar os carros nacionais.

Outro tema do grupo de trabalho é que tipo de incentivos podem ser dados para o desenvolvimento de veículos híbridos e elétricos. No relatório preliminar, os técnicos vão destacar que, atualmente, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos elétricos tem uma alíquota de 25%. Além disso, há impostos estaduais, como o ICMS, que oneram o valor dos carros. Esse comportamento vai na contramão de uma tendência mundial de estimular a produção de carros menos poluentes.

Nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, os governos concederam financiamentos e estabeleceram metas para a entrada de veículos elétricos no mercado. Em agosto de 2009, o presidente Barack Obama anunciou a concessão de US$ 2,4 bilhões em recursos federais para ajudar empresas e universidades na criação de baterias e veículos híbridos e elétricos. Foi criado ainda um subsídio de US$ 7.500 para quem adquirir um veículo elétrico.

Segundo um participante do grupo de trabalho, além da carga tributária, o desenvolvimento de veículos elétricos no Brasil enfrenta também problemas técnicos. Com esses carros são muito pesados e precisam de uma infraestrutura de energia especial para serem carregados, uma ideia inicial seria o governo investir primeiro em ônibus elétricos, o que poderia baixar o valor das tarifas para a população.

Para o ex-presidente da Auto-Latina e consultor do Centro de Estudos Automotivos (CEA), Luiz Carlos Mello, o governo deveria aproveitar o grupo de trabalho para incentivar não apenas o desenvolvimento de veículos híbridos e elétricos, mas também a modernização dos carros com motor flex, que aceitam tanto o etanol quanto a gasolina.

– Ainda há muito a se fazer para que o etanol ganhe eficiência em sua queima. Os países ricos fazem incentivos em projetos de veículos híbridos e elétricos porque não têm a disponibilidade de recursos naturais como o Brasil – afirma ele, lembrando ainda:

– O governo perdeu a chance de usar incentivos fiscais como contrapartida para o desenvolvimento de projetos de eficiência do carro a álcool.

Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também defende que o Brasil trabalhe pelo desenvolvimento da tecnologia do etanol, que poderia até mesmo ser uma opção veículos de grande porte como ônibus e caminhões, hoje movidos a diesel. O etanol poderia ainda ser uma alternativa para os motores híbridos _ intercalando energia elétrica com um combustível menos poluente. “Os veículos híbridos já têm o apelo de agredirem menos o meio ambiente. Se os motores de combustão interna neles utilizados forem movidos a etanol, eles teriam virtualmente emissões zero de CO2, equiparando-se aos veículos puramente elétricos. A manutenção dos preços do petróleo em patamares elevados, em especial os anteriores à crise de 2008, contribui para o desenvolvimento dos veículos elétricos, mas também incentiva o etanol“.

Fuente: O Globo (17/05/2010).