Possível prorrogação do corte do IPI cria incerteza para venda de carros

O mercado trabalhava com a sinalização de que a redução do IPI, que termina dia 30, não seria prorrogada

A possibilidade do governo federal prorrogar a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os veículos pode ser considerada uma notícia boa, mas em hora errada. Ao mesmo tempo em que sinaliza que as montadoras terão condições de manter produção e empregos por um período maior, ameaça esfriar as vendas deste mês, que estavam acima das expectativas. O crescimento no número de emplacamentos de automóveis e comerciais leves, nos nove primeiros dias de junho, indicava que este poderia ser o melhor mês do ano e até bater o recorde do setor, registrado em julho do ano passado, de 272,9 mil .

Houve até agora um forte movimento de antecipação de compras porque o mercado trabalhava com a sinalização de que a redução do IPI, que termina dia 30, não seria prorrogada. Ontem, um ministro próximo a Lula disse ao Valor que poderá haver um novo adiamento, mas por prazo inferior a três meses. A elevação do IPI também poderá ser gradual e o presidente gostaria de manter o incentivo integral para os modelos populares enquanto durar a crise.

A possibilidade do governo federal prorrogar a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os veículos deve ter um efeito duplo sobre o setor. Ao mesmo tempo que sinaliza que as montadoras terão condições de manter produção e empregos por um período maior, ameaça esfriar as vendas este mês, que estavam acima das expectativas. O crescimento no número de emplacamentos de automóveis e comerciais leves, nos nove primeiros dias de junho, indica que este poderá ser o melhor mês do ano e até bater o recorde do setor, registrado em julho do ano passado.

Até terça-feira, foram emplacados 77,8 mil automóveis e comerciais leves no país, alta de 8,2% sobre maio. Para igualar o mês de março, o melhor do ano até agora, o crescimento em junho tem de ser ao menos de 10,1% sobre maio. Se chegar a 15%, como estimavam alguns concessionários antes das notícias da possível prorrogação do benefício fiscal, o recorde histórico apurado em julho do ano passado poderá ser atingido.

Como a primeira semana, segundo representantes da indústria automobilística, é tradicionalmente mais fraca do que o restante do mês, a previsão era de que a partir de segunda-feira as vendas acelerassem ainda mais. O único fator no cenário do setor que deveria impactar a média diária de emplacamentos era o feriado de Corpus Christi, que deixa o mês de junho com um dia útil a menos do que em março.

Mas a expectativa da prorrogação gera dúvidas sobre o comportamento futuro do consumidor. Segundo um ministro próximo do presidente Luiz Inácio Lula das Silva, é “muito provável” que ocorra uma nova prorrogação, mas, dessa vez, ela poderá ser inferior a três meses.

Como a medida vem provocando frustração de arrecadação num momento em que as receitas estão fracas por causa da desaceleração da economia, a equipe econômica passou a considerar a hipótese de não renovar o benefício. A perda de receita estimada com o IPI reduzido, entre janeiro e junho, é superior a R$ 1 bilhão.

Em entrevista concedida à agência Reuters na quarta-feira, Lula disse que o ideal seria manter o IPI reduzido de forma “permanente”. A declaração provocou ruído dentro da área econômica, que esperava anunciar uma decisão apenas no fim deste mês. Esclareceu-se também que o governo não trabalha com a hipótese de redução permanente do IPI, mas apenas enquanto durar a crise.

Desde janeiro, os carros populares (até mil cilindradas) estão sendo produzidos com alíquota zero de IPI – antes, pagavam 7%. Os carros de 1.000 a 2.000 cilindradas tiveram o imposto cortado pela metade (de 13% para 6,5% nos modelos à gasolina e de 11% para 5,5% nos modelos de motor a álcool ou flex).

Havia a expectativa de aumento no número de feirões e das promoções para o que até então era o último mês de redução de IPI. Agora, provavelmente, montadoras e concessionárias devem rever seus planos.

Marcos Leite, gerente da concessionária Amazon da Volkswagen, confirma a alta das vendas no início do mês. Até o último fim de semana, segundo ele, as vendas estavam em alta de 15%. No caso da Volks, algumas versões de modelos, como Fox, Gol e Voyage, já possuem fila de espera. O Voyage 1.0, segundo Leite, é o que tem maior espera, podendo chegar a três semanas.

Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sergio Nobre, a retomada da cobrança do IPI deveria acontecer de forma gradual. “Acho prudente que seja feito ao longo de meses, pois ainda temos o problema das exportações pressionando o nível de emprego”, diz o sindicalista.

Além das exportações de veículos e comerciais leves, Nobre lembra que o mercado de caminhões, tanto interno como externo, não tem apresentado recuperação. “Diversas montadoras de caminhões estão negociando planos de demissão voluntária na região do ABC na expectativa de resolver o excedente de mão de obra.”

No caso dos veículos, nem mesmo os revendedores arriscam um palpite para o caso de o IPI ser retomado. “Acho que será um mês (julho) complicado”, diz o presidente da Associação dos Distribuidores Ford (Abradif), Benedito Porfírio Lima.

Em março, a prorrogação do IPI só foi anunciada oficialmente após o último fim de semana do mês. O desempenho das vendas de comerciais leves e automóveis em abril, com o consumidor consciente de que poderia se planejar melhor para aproveitar os descontos, caiu de 261 mil emplacamentos em março para 224 mil no mês seguinte.

Fuente: Valor Económico (12/06/09)