Os chineses estão chegando. A maior fábrica de automóveis daquele país, a Chery, comunicou a decisão de montar uma fábrica no Brasil. A aposta é de que o primeiro carro chinês produzido aqui chegará ao mercado no final de 2011. Não há definições de local para a fábrica – sempre um processo bem favorável ao investidor pela guerra fiscal vigente entre estados no Brasil. Porém, a presidência da Chery anunciou investimentos entre US$ 500 milhões e US$ 700 milhões para a instalação da fábrica brasileira. A capacidade de produção já foi definida e ficará em torno de 100 mil a 150 mil veículos anuais.

A indústria automobilística chinesa tem características bem diferentes de suas concorrentes internacionais. Atualmente, a China conta com pouco mais de 120 fábricas, várias delas de pequeno porte, que atingiram no ano passado produção superior a 8 milhões de unidades. O objetivo é produzir 12 milhões de carros em 2010. Como é comum a instalação de fábricas de autos com produção em torno de 150 mil unidades, essa meta significa que, neste ano e no próximo, no mínimo 13 novas fábricas devem ser abertas. Na prática, a decisão da Chery indica que o investimento de uma dessas plantas industriais dessa montadora foi deslocada para o Brasil. Vale lembrar que a Chery foi fundada em 1997, com 100% de capital estatal chinês. Até 2006 tinha produzido 1 milhão de carros. Hoje a Chery tem quatro fábricas em território chinês, uma de transmissão e outras duas de motores. Porém, já montou subsidiárias em oito países antes do anúncio da fábrica brasileira. Com 20 mil funcionários a empresa produzirá neste ano 650 mil carros. O maior alvo dos chineses é fazer do Brasil base de exportação para a América Latina. A direção da montadora já comunicou a pretensão de vender seus modelos primeiro no âmbito do Mercosul. A base de operação para venda da marca, já montada no Brasil, será o ponto de sustentação para futura fábrica.

O Brasil pode ter significativo ganho de competitividade com a chegada da primeira montadora chinesa no mercado nacional. Na verdade, a decisão anunciada se encaixa em amplo plano quinquenal de relacionamento comercial entre Brasil e China, para o período de 2010 a 2014. Há metas bem definidas para o futuro do comércio bilateral entre os dois países, com investimentos previstos e acordos de cooperação para várias áreas e setores. Os primeiros pontos desse acordo devem ser assinados na visita do presidente Lula à China entre 18 e 20 de maio. O anúncio da concessão de financiamento chinês de US$ 10 bilhões à Petrobras, visando à participação na exploração da camada pré-sal, já faz parte desse processo de incentivo às relações bilaterais.

Por outro lado, a presença chinesa na corrente de comércio brasileira é crescente. Em março, o Brasil alcançou um superávit de US$ 508 milhões no comércio bilateral com Pequim. As exportações brasileiras para a China aumentaram 54,3% no mês passado pela média por dia útil, quando comparada com as médias do mesmo período de 2008. No primeiro trimestre, as exportações para o mercado chinês aumentaram 62,7%; já as importações da China recuaram 19,4%, na mesma comparação. No acumulado do trimestre, os chineses compraram praticamente o mesmo valor dos brasileiros do que os norte-americanos, US$ 3,4 bilhões e US$ 3,6 bilhões, respectivamente. Porém, em março os chineses ultrapassaram os Estados Unidos como os maiores compradores de produtos brasileiros. Esse intercâmbio ainda enfrenta arestas pela pressão dos chineses por maior abertura do mercado brasileiro. Por exemplo, condicionaram a plena liberação de frango para o mercado chinês, desde que a contrapartida brasileira inclua a importação de tripas de ovinos e caprinos usados na confecção de fios cirúrgicos.

Há, no entanto, sérias dificuldades de inserção de um automóvel chinês no mercado brasileiro. A presidência da Chery brasileira reconhece que o maior desafio da empresa é mostrar que uma marca chinesa pode ter “valor agregado e tecnologia avançada”. Essa companhia acredita que o consumidor brasileiro fará uma distinção entre uma marca que já está presente em oito países com as demais fabricantes de carros chinesas. É uma aposta complexa, apesar das constantes lembranças de que o mercado brasileiro também não conhecia os produtos das montadorasjaponesas e coreanas há pouco mais de uma década e hoje tais produtos ampliam constantemente suas fatias de participação no mercado nacional de automóveis. A economia chinesa tem fortes características de complementaridade com a brasileira. Investimentos chineses, inclusive no setor automobilístico, representam sinais importantes dessa complementaridade.

Fuente: Gazeta Mercantil (27/04/09)