Com o corte na produção das montadoras e o mercado ensaiando um reaquecimento após a queda do IPI, já faltam carros para pronta entrega nas concessionárias.

Alguns modelos que constam na lista dos dez mais vendidos, como o Fiat Uno (2º no ranking), o Fiat Palio (3º) e o Ford Ka (9º), levam até 30 dias para ser entregues em algumas lojas.

“Não esperávamos isso. De um lado, o mercado deu uma mexida. Os bancos voltaram a dar crédito, e a redução do IPI impulsionou as vendas. Mas, por outro lado, houve uma queda drástica na produção”, disse o gerente de seminovos do grupo Amazonas (Fiat), Richard Marques.

Em sua loja, além do Uno e do Palio, estão em falta a linha do Punto e o Siena. Para Marques, as montadoras acabaram “perdendo o rumo” na hora de reduzir a produção. E o concessionário, diz, fica com o risco de perder o cliente que tem pressa na aquisição do automóvel.

O presidente da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), Sérgio Reze, argumenta que as férias coletivas nas montadoras foram necessárias diante do cenário de retração nas vendas por conta da crise financeira global. “Mas houve um descompasso. Ninguém consegue ter essa precisão para afirmar a partir de qual dia tem que voltar a produzir para não faltar carro nenhum nas concessionárias”, afirma.

Na avaliação dos concessionários, a situação não deve se normalizar antes de março, já que a redução do IPI -que vigora até o fim do mês que vem- levou a um aumento de até 15% na procura por alguns modelos, especialmente os populares.

Mas a falta de carros não se restringe aos modelos 1.0. Para comprar um Vectra ou uma Meriva, da GM, o consumidor hoje leva 30 dias; já uma Zafira demanda uma espera de 15 dias, afirma o gerente de vendas da Itororó (Chevrolet), Paulo Rogério Moreira.

Na rede de distribuição da Volks, o Voyage é o modelo problemático no momento. “Leva uns 15 dias de espera”, diz Ricardo Nosella, gerente de vendas do grupo Faria (VW). “Estamos equacionando nossos estoques para evitar que ocorra falta dos carros de maior saída, como o Gol.”

Corte excessivo

Depois do corte de 54% em dezembro passado em relação ao mesmo mês de 2007, a produção de veículos só deve se normalizar no mês que vem. Embora as férias coletivas já tenham terminado na maior parte das montadoras, há um ciclo longo na produção dos carros.

“Isso não se faz do dia para a noite. É preciso verificar os estoques de materiais, porque a cadeia de suprimento também deixou de produzir. Será necessário rever volumes, cor e tudo o mais”, diz o consultor André Beer, ex-presidente da Anfavea (associação das montadoras).

Para ele, diante do “susto” com a retração no mercado, as montadoras acabaram por promover um corte excessivo na produção. “Agora, que o mercado começou a esboçar um reaquecimento, faltam carros nas concessionárias.”

Em janeiro, as vendas da indústria automotiva aumentaram 3,2% em relação a dezembro, com o emplacamento de 189.731 unidades, entre automóveis e comerciais leves. Na comparação com janeiro do ano passado, no entanto, as vendas caíram 7,6%. Os dados oficiais devem ser divulgados hoje pela Fenabrave.

Fuente: Folha de S. Paulo (04/02/09)