O enorme esforço de marketing da indústria para convencer o consumidor a trocar o carro antes do aumento do IPI levou a uma exagerada antecipação de compras. Como resultado, poucos dias depois de viver momentos de euforia, as concessionárias de repente ficaram vazias. O presidente da Nissan, Thomas Besson, conta que o movimento nas lojas da marca caiu entre 45% e 50% nas duas últimas semanas. “Estamos passando por um período de ressaca”, diz o vice-presidente comercial da Renault, Christian Pouillaude.
Essa percepção dos executivos da indústria automobilística não se reflete nos números de licenciamento de veículos. Ao contrário, o volume acumulado de carros novos emplacados nos 11 dias úteis de outubro cresceu quase 20% na comparação com igual período de setembro, um mês recorde para o setor. Nos primeiros 11 dias úteis de outubro, foram licenciados no país 162,3 mil veículos, ante 135,9 mil de igual período de setembro.
Mas, segundo os executivos do setor, os dados de licenciamento se referem à última temporada de mercado aquecido, na véspera do aumento do IPI. São carros que foram vendidos a preços mais baixos, no fim do mês, e que estão sendo agora licenciados.
Se a reclamação da indústria fizer sentido, os efeitos vão aparecer nos licenciamentos do fim do mês. Mas não é só a indústria que se queixa. Os revendedores autorizados também sentiram queda de interesse do consumidor. Segundo Marcos Leite, gerente de vendas da Amazon, concessionária Volkswagen de São Paulo, mesmo com feirões, as vendas nessa loja caíram 30% nos últimos dias em relação a um mês atrás.
Foram, entretanto, os fabricantes e vendedores que minaram o próprio campo ao fazer alarde em torno do fim do benefício fiscal. O excesso de campanhas em torno do término do incentivo fiscal pode ter confundido o consumidor. Executivos do setor acreditam que muitas pessoas pensam que o IPI já subiu para alíquota original de uma vez.
Mas, na verdade, a alíquota do imposto será elevada gradativamente, entre outubro e janeiro. Ao optar por esse escalonamento, o governo federal pretendia justamente evitar um súbito esfriamento do mercado.
Em consequência, as montadoras serão obrigadas a retomar, neste fim de mês, o mesmo tom das campanhas publicitárias, chamando o consumidor para comprar antes do próximo aumento do IPI.
O que ninguém sabe é até que ponto as vendas do último trimestre foram antecipadas. E quanto ainda sobrou de fôlego. Vale lembrar que o consumidor viveu uma experiência de alarme falso este ano. Inicialmente o IPI, reduzido em dezembro de 2008, voltaria a subir integralmente em junho. Nas semanas que antecederam essa data houve uma corrida às compras. Nos dois momentos – véspera de junho e de outubro – até faltaram carros, principalmente os mais baratos. O mercado viveu, portanto, dois momentos de antecipação de compras, o que esfria agora as vendas que tradicionalmente começariam a aumentar por conta da proximidade do Natal.
Para o presidente da Ford, Marcos de Oliveira, o governo deverá analisar o mercado nos próximos dias para tomar alguma nova medida para evitar uma queda de demanda. “O que me surpreende é que as condições de crédito de hoje são as mesmas de antes da crise no crédito, no segundo semestre do ano passado”, diz o presidente da Volkswagen , Thomas Schmall.
A conclusão do presidente da Volks sugere que o episódio do IPI também provocou um efeito psicológico no consumidor. Marcos Leite, da concessionária, lembra que com a queda dos juros, em alguns casos, a prestação de um carro pode ficar praticamente igual mesmo com o aumento do tributo.
A indústria acalenta uma grande expectativa de que o governo mantenha algum tipo de incentivo fiscal. “O problema é que isso é sempre decidido na última hora, o que nos impede de programar a produção adequadamente”, afirma Pouillaude, da Renault. “No ano passado, o mercado explodiu justamente quando havíamos acabado de desacelerar o ritmo”, completa. O presidente da Renault, Jean-Michel Jalinier, diz esperar que o governo anuncie alguma medida para manter a demanda aquecida.
Em dezembro de 2008 um decreto presidencial reduziu o IPI dos carros populares de 7% para zero. Para os modelos médios o tributo foi cortado à metade. Com o aumento gradual, que obedece as expectativas do governo de retomada do crescimento econômico, a alíquota do imposto do modelo popular, por exemplo, foi para 1,5% em outubro. Subirá para 3% em novembro, 5% em dezembro e novamente para 7% em janeiro.
Segundo Pouillaude, uma elevação de 5% a 7% representa uma queda de vendas de 20%, o que eliminaria o crescimento que o setor conseguiu com o benefício fiscal. Isso poderá, segundo alguns, obrigar a indústria a baixar preços no fim do ano, já que nenhuma montadora parece disposta a diminuir o ritmo de produção.
É por isso que, apesar de o número de licenciamento de veículos acumulado do ano – de janeiro a 18 de outubro – estar 4,86% acima de igual período de 2008, a indústria automobilística deverá passar o restante do ano se queixando.
Fuente: Valor Econômico (20/10/2009)